Cancioneiro do NiassaO Cancioneiro do Niassa nacque nei primi anni ’70 da un gruppo di ufficiali e sottofficiali di leva spediti a fare la guerra coloniale nel Mozambico. Confinati nell’interno del paese in zone di intenso combatimento, senza altri svaghi che il comporre delle canzoni sulle disgraziate condizioni di vita che erano costretti a subire e soffrire, e poi nella notte cantarle per i loro compagni; ne risultò che, malgrado le condizioni di durissima repressione e conseguente clandestinità della loro divulgazione, queste canzoni si diffusero in centinaia di cassette tra i soldati portoghesi nelle caserme del Mozambicco. Anche se spesso troppo naïves, questi canti sono stati importanti per la presa di coscienza civica e politica tra i militari che entro pochi mesi sarebbero stati protagonisti del nostro 25 aprile. Aggiungendole al nostro patrimonio di canzoni contro la guerra, vorrei fare un omaggio ai loro autori, cantanti e divulgatori, a modo loro tra i veri eroi di quella squallida guerra di strage contro i popoli africani.

(José Colaço Barreiros)

*

O LUNHO, uma zona quase desconhecida ao Norte de Moçambique, e o HINO DO LUNHO, a partir da CANÇÃO - OS VAMPIROS de ZECA AFONSO, devem ter dado origem, julgamos nós, a um fenómeno dos mais originais, criativos e significativos que aconteceram na GUERRA DO ULTRAMAR. Claro que deve ter começado antes, e continuado depois, mas foi com o nosso BATALHÃO de ARTILHARIA 2838, e a COMPANHIA de ARTILHARIA 2325, que este fenómeno se desenvolveu e depois foi divulgado pela Marinha (a famigerada MARINHA DE ÁGUA DOCE sediada em Metangula que até tinha ar condicionado, rádio e tudo...), que este fenómeno adquiriu a sua projecção especial.

Foi esta CART 2325 que herdou esta versão dos VAMPIROS do alferes Carvalho da Companhia que fomos render(?!). Consta, conta-se que este rapaz, um tanto forte a dar p’ró gordo, era a calma em pessoa, e, era um génio em aplicações práticas de engenharia. Num atascanso, por exemplo, (Não sabem o que é?) em vez de pôr a malta a puxar à bruta, sentava-se a calcular a força e a posição do pequenos Unimogs e, aí estava uma pesada Berliet fora do buraco!!!. Consta ainda, conta-se, que, enquanto os Unimogs puxavam e não puxavam, se sentava encostado ao tronco de um enorme embondeiro, (Também não sabem o que é?) e no fim, estava mais uma canção feita. Quando lhe vinham trazer a notícia, que ele já sabia, de que a Berliet estava desatascada, ele, displicente, puxava da viola e aí estva mais um fado ou uma canção, uma adaptação! Era uma maneira original e “subversiva”!? de encarar a guerra! Ora isto, creio eu, deu origem a algo singular que, passados vinte anos, vinte e cinco, ainda não foi percebido. Talvez o venha a ser.

Naquele tempo, e nos anos da revolução, os heróis foram aqueles que desertaram e depois se locupletaram com os louros e proventos da REVOLUÇÃO. Este fenómeno de contestação daqueles que não quiseram ou não puderam “desertar” porque não podiam fugir, e, mesmo assim, não abdicavam do seu poder crítico e da sua maneira de ver as coisas, é algo que é preciso entender como forma “normal” do comportamento humano, em situações de risco e de “irracionalidade” e “injustiça” normalizada, institucionalizada e legalizada.

Esse acontecimento singular, com a conivência de alguns dirigentes e oficiais (os do 25 de Abril não vieram do nada!), deu origem, passado um ou dois anos, a uma coisa que se chamou - O CANCIONEIRO DO NIASSA -.

Com as melodias das músicas mais em voga nesse tempo, finais dos anos sessenta, de que nos recordávamos, alguns dos nossos colegas do BATALHÃO e de outros, e os vizinhos da MARINHA, criaram letras que cantámos e punham toda a gente a cantar, tentando gritar a nossa raiva, insatisfação e impotência, e, ao mesmo tempo, nos proporcionaram momentos de inesquecível convívio que teriam repercussões e efeitos imprevisíveis!

Não raro, passou mesmo a ser de bom tom, (ali no mato aconteciam coisas estranhas!!!), convidar um BALADEIRO (soldado, furriel, sargento, oficial...!) que se apresentava estoirado de uma operação no mato, para cantar aquela versão do fado (...!?), ao ao senhor General, Almirante ou Brigadeiro que estavam ali de passagem, para inspecção ou em viagem de rotima...!

A maior parte dos autores, sobretudo na altura como é compreensível, eram ou ficavam desconhecidos. Era natural. Todos ali sabíamos quem eram, mas o facto de terem saído umas letras nuns jornais com nomes e tudo e o zelo da PIDE e outras organizações, recomendavam que aquilo aparecesse como um fenómeno colectivo e expontâneo como acontece com a poesia popular e tradicional que, sendo de todos, não são de ninguém como as “Cantigas da Rua...”

Foram muitos os que contribuiram para este CANCIONEIRO. Não temos sequer a pretensão de estar convencidos que temos todas e as mais profundas.

Estamos no entanto convencidos de que, pela variedade de autores, temas e melodias facilmente identificáveis pelos que têm acesso ao que estava em voga nos anos sessenta, setenta, temos, de facto algo de valor documental que pode mostrar o retrato de uma época e de uma maneira de ser e estar própria de um número significativo de pessoas que, não tendo posições de relêvo, têm a sua maneira de intervir na história.

Quem tiver oportundade de ouvir uma famigerada cassete que circulou “clandestina” de mão em mão com o CANCIONEIRO DO NIASSA e ter acesso a uma recolha como esta ou outras similares, pode aperceber-se do cuidado que tinham, em não ofender “ouvidos atentos” e perigosos que sempre estavam por perto!

E não eram só os da PIDE ou similares. Eram até os zelosos defensores dos “bons costumes”, das boas maneiras e da linguagem! Claro! A linguagem é que revela os “bons” ou os “maus” costumes ou modos de pensar e estar na vida! É de notar entretatanto, que, quase todos os palavrões, (a coisa mais natural nos meios castrenses!) têm, quase sempre, uma palavra suave e digna (como “corra” em vez de “porra”, “leões” ou “colchões” em vez de “colhôes” ou “carvalho” em vez de “caralho” ou até “perriupiupiu” em vez de “puta que os pariu”) para que tudo isto pudesse ser apresentado e cantado nos salões do mais elevado requinte!!!

É por isso, e por muito mais, que, passados VINTE E CINCO ANOS!!!, (desde 1968 – 1970) - (outro fenómeno que dara para um enorme estudo... Porquê? mais de vinte anos?) aqui fica uma recuperação daquilo que conseguimos recordar ou recuperar.

Seguimos as recolhas feitas pelo Jornal do Batalhão de Artilharia 2838, “OS LOBOS” que esteve em comissão em Moçambique entre Janeiro, Fevereiro de 1968 e Março Maio de 1970. Até certa altura foi publicando o que aparecia, depois?... Depois, mudou o comandante! Seguimos ainda o “HIT PARADE DO NIASSA - DESABAFOS- ” umas folhas com a menção de “REPRODUÇÃO PROIBIDA” que guardamos desde 1970 e uma cassete com o “CANCIONEIRO DO NIASSA” que, clandestina, toda a gente desse tempo sabe que só a MARINHA QUE ESTEVE EM METANGULA tinha meios e possibilidades de a realizar, até o/s cantor/es, o homem das partituras e das letras e o homem das gravações, que tiveram de fazer várias maratonas!!!

Tentámos “dar o seu a seu dono” e identificar o maior número possível de autores das letras. Mesmo sem conseguir tudo, deixamos espaço para cada um fazer esse trabalho.

Aí fica pois, a recolha de que fomos capazes e a hipótese de cada um a completar da melhor maneira possível.

http://www.joraga.net/pags/52cancNiassa.htm